Categoria: Artigos
Data: 06/01/2026
A compreensão cristã da política deve enxergar as ideologias não apenas como sistemas intelectuais, mas como formas modernas de idolatria. Segundo David Koyzis, o pensamento ideológico isola um elemento da criação, elevando-o a um status divino e esperando que ele tenha o poder de nos salvar de algum mal. Esse processo de deificação molda profundamente nossa percepção da realidade, criando concepções próprias de "pecado" e "redenção" que competem diretamente com a verdade bíblica.

Historicamente, essa visão evoluiu de uma "ciência das ideias" no século XIX para interpretações mais críticas, como a "falsa consciência" de Marx, usada para manter a classe dominada sob controle. Pensadores como Hannah Arendt e Bernard Crick alertaram que a ideologia contém elementos totalitários que ameaçam a liberdade da ação política ao tentarem explicar todo o mundo de forma unitária. Já Václav Havel descreveu a ideologia como uma "pseudorealidade" que aprisiona os indivíduos, forçando-os a "viver em uma mentira" onde a escravidão se disfarça de liberdade.

O impacto em nosso cotidiano é prático, pois as ideologias oferecem narrativas "pseudorredentoras". Enquanto o Evangelho foca na Criação, Queda e Redenção em Cristo, as ideologias buscam a salvação em elementos criados, como a máxima liberdade individual ou a posse comum da riqueza. Como alerta Bob Goudzwaard, somos transformados à imagem daquilo que adoramos, o que significa que nossas sociedades e relações pessoais acabam estruturadas conforme esses ídolos políticos.

Além disso, as classificações tradicionais de "esquerda e direita" mostram-se inadequadas por serem unidimensionais e variarem conforme a época. Elas falham ao ignorar que a maioria das ideologias modernas pertence à mesma família secularista, divergindo apenas sobre qual aspecto da humanidade escolhem adorar. Isso gera polarizações rasas que rotulam indivíduos sem considerar as raízes religiosas profundas e as inconsistências internas de seus posicionamentos.

Apesar disso, Koyzis nos convida ao discernimento, reconhecendo que as ideologias podem conter "fragmentos de verdade" ao valorizarem aspectos da criação que permanecem bons. Devemos avaliar cada visão política perguntando qual sua base criacional, o que ela considera a fonte do mal e onde situa a salvação. Esse exercício nos permite qualificar a política, honrando a soberania de Deus e trabalhando pela justiça de forma fiel e equilibrada.

Gabriel Chebek
Diácono e Superitendente do IBB


Autor: Diác. Gabriel Chebek   |   Visualizações: 131 pessoas
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